Cadastre seu e-mail:

sábado, 5 de julho de 2014

O Anseio de Estar na Presença de Deus

Por: Pr. Thomas Tronco

Thomas Paine, um britânico que imigrou para a América, ficou famoso ao escrever brilhantes panfletos sobre a liberdade. Estes acabaram inflando um sentimento de nacionalismo que levou à guerra americana pela independência. Paine, por sua vez, tornou-se um dentre os fundadores dos Estados Unidos da América. Apesar do seu papel na história americana, seu maior desejo era ser conhecido pelo que ele imaginava que seria sua “obra-prima”, um livro intitulado A era da razão que zombou do cristianismo (The age of reason which scoffed at christianity).

O intento de Paine era acabar com a fé nas Escrituras. Dizia ele: “Esse livro irá destruir a Bíblia... Em menos de cem anos, as Bíblias só serão encontradas em museus ou em sessões de velharias de lojas de segunda mão”. Mas não foi isso que aconteceu. Seu livro foi publicado em 1794, mas, em lugar de fama e honra, trouxe a ele miséria e solidão, a ponto de ele vir a dizer: “Eu daria mundos, se eu os tivesse, para que A era da razãonunca tivesse sido escrito”. Ele morreu em 1809 totalmente sem amigos, esquecido de todos, enquanto a Bíblia continua sendo um best-seller.

O desejo do escritor foi diametralmente oposto ao de Davi. Se Paine queria se afastar o máximo que pudesse da ideia de Deus, Davi mostrou, no Salmo 63, qual era o tamanho do seu desejo de estar na presença do Senhor. Pelo menos duas referências no texto nos indicam a ocasião em que o salmo foi escrito. Em primeiro lugar, o título mostra que Davi estava no deserto de Judá. Já que ele se refere a inimigos que queriam lhe tirar a vida (v.9), entende-se que Davi estava em fuga. Em segundo, Davi se refere a si mesmo como “rei” (v.11), eliminando seus dias de fuga de Saul como momento histórico do salmo. O contexto, assim, recai sobre o golpe de estado de Absalão, do qual Davi teve de fugir de Jerusalém, “seguindo o caminho do deserto” (2Sm 15.23).

O desejo de Davi de estar com Deus é expresso logo no início do salmo (v.1a): “Ó Deus, tu és o meu Deus, eu busco a ti com afinco” (’elohîm ’elî ’attâ ’ashahareka). Essa é uma expressão de desejo de alguém que se vê privado daquilo que anseia, visto que, no v.2, ele se refere ao tabernáculo do Senhor que estava em Jerusalém, e que abrigava a arca, a qual, na fuga, Davi teve de deixar para trás (2Sm 15.24,25). Apesar de Deus estar em toda parte, Davi se refere à adoração do Senhor nos seguintes termos (v.2): “No tabernáculo santo eu te contemplo para ver tua força e tua glória” (baqqodesh hazîtîka lir’ôt ‘uzzeka ûkevôdeka). Isso porque o tabernáculo e a arca simbolizavam a presença de Deus no meio de Israel como povo eleito. Para Davi, se afastar da arca era, também, se afastar do lugar especial em que Deus podia ser encontrado e adorado pelos israelitas. Esse afastamento foi extremamente doloroso para o salmista e seu desejo mais profundo era retornar à presença do Senhor.

O desejo de estar com Deus pode ser visto no fato de que a ausência do tabernáculo e da arca, para o salmista, era pior do que outras carências óbvias de quem está no meio de um deserto em fuga a fim de salvar sua vida. A subvalorização de tais carências, em vista do desejo prioritário de estar com Deus, mostra a importância que Davi dava à necessidade de viver na presença do Senhor.

Assim, em primeiro lugar, Davi deseja o Senhor mais do que saciar a sede no deserto (v.1b): “Minha alma tem sede de ti, meu corpo desfalece por ti, em terra seca e árida, sem água” (tsom’â leka napshî kamah leka besarî be’erets-tsîyâ we‘ayef belî-mayim). Na verdade, o corpo de Davi devia estar desfalecido por falta de água, por ter de consumi-la de modo racionado. Esse era um procedimento normal em uma travessia ou estadia em lugares desérticos. Porém, Davi lança mão desse anseio por água para se referir ao que realmente o preocupava: a distância da arca e da presença do Senhor. A distância dessa presença afligia Davi mais que a sede no deserto.

Em segundo lugar, Davi deseja o Senhor mais do que conservar sua vida. Sua fuga de Absalão e dos demais traidores se devia ao risco de ele cair nas mãos dos inimigos e ser morto. Estava no meio do deserto porque queria proteger sua vida. Mas nem a vida superava a importância de Deus para o salmista, que diz (v.3): “Porque o teu amor é melhor que a vida” (kî-tôv hasdeka mehayyiym). A palavra hesed (amor) é usada muitas vezes dentro do conceito das alianças para se referir à “fidelidade” de Deus de fazer o que prometeu para com o povo de Israel quando eles mereciam o oposto. No caso da aliança que Deus fez com Davi (2Sm 7.11-16), ohesed de Deus é a causa de ele garantir a descendência davídica no trono de Israel. Por isso, Davi o valoriza mais que sua própria vida. Se o salmista não tem certeza de quanto ainda vai viver, ele tem plena certeza de como vai viver até que a morte o encontre (v.4): “Por isso, eu te bendirei enquanto eu viver” (ken ’avarekka behayyay).

Em terceiro, Davi deseja o Senhor mais do que ter alimento (v.5). Em um deserto, o racionamento obrigatório para manter o grupo vivo não era apenas de água. A comida também era racionada. O profeta Ezequiel falou do que aconteceria aos moradores de Jerusalém ao sofrerem um cerco pelo exército babilônico assim: “Comerão o pão por peso e [...] beberão a água por medida” (Ez 4.16). Com Davi e seus homens, não devia ser diferente. Eles não se deleitavam mais das boas comidas a que estavam acostumados. Entretanto, se fisicamente Davi não se fartava de alimentos, espiritualmente ele se vê saciado, pelo que diz (v.5): “Minha alma se sacia como se comesse carne gorda e nutritiva” (kemô helev wadeshen tisba‘ nafshî). A pergunta é: saciado com o quê? A resposta vem na sequência: “Pois com lábios exultantes, minha boca louva” (wesiftê renanôt yehallel-pî). Em lugar de mastigar alimentos saborosos, a boca de Davi estava cheia de louvores ao nome do Senhor.

Em quarto lugar, Davi deseja o Senhor mais do que o tempo de descanso (v.6): “Quando de ti me recordo em meu leito, eu medito em ti de madrugada” (’im-zekartîka ‘al-yetsû‘au be’ashmurôt ’ehgeh-bak). Davi não está relatando um caso de insônia por causa de preocupações com o risco de morrer. Ele, em outro salmo escrito na mesma ocasião de fuga diante do golpe de estado de Absalão, diz que se deitava e descansava em paz: “Deito-me e pego no sono” (Sl 3.5a). Entretanto, quando pensava em Deus, ele não achava um fardo ficar meditando sobre o Senhor, ainda que seu corpo pedisse por descanso após um dia em circunstâncias adversas. Davi trocava o tempo de descanso a fim de se aproximar de Deus na meditação noturna.

Por fim, Davi deseja o Senhor mais do que a segurança pessoal. A segurança de um rei vinha do seu exército e das fortes muralhas de sua cidade. Quanto ao exército, Davi fugiu com um contingente reduzido que permaneceu fiel a ele. Quanto às muralhas, Jerusalém ficou para trás e agora estava sob o controle de Absalão, enquanto o salmista está desprotegido no meio do deserto. Ainda assim, Davi adora o Senhor e diz a razão do seu louvor (v.7): “Pois tu és a minha proteção” (kî-hayîta ‘ezratâ lî). Tal proteção é também descrita na forma figurada de uma ave que protege seus filhotes: “À sombra das tuas asas eu me regozijo” (betsel kenafeyka ’arannen). Se para Davi Deus valia mais que a proteção de uma muralha, também valia mais que a espada empunhada dos seus soldados, visto que diz (v.8): “A tua mão direita me sustenta” (tamkâ yemîneka). Não é para menos que Davi deseja tanto estar na presença de Deus. Ele vê o Senhor como fonte da alegria e segurança, ao mesmo tempo que sabe que os inimigos não são capazes diante do soberano (vv.9-11).

Mas note bem: nenhum desses valores que Davi subvalorizou é ruim. Ao contrário, são tão bons que Deus abençoava Israel por meio deles (Dt 28.15-67). Na verdade, o próprio rei os valorizava, mas nunca os colocava na frente do seu relacionamento com o Senhor. Assim, é chocante e inspirador ver que ele trocaria tudo o que lhe dava segurança e conforto para andar com Deus e louvá-lo no lugar onde, representativamente, habitava no meio de Israel.

Porém, mais chocante ainda é observar que, em nossos dias, a busca por esses bens é frequentemente a causa de pessoas abandonarem o Senhor ou deixarem-no em segundo plano. Por causa de conforto, segurança, descanso e lucros financeiros, já vi muitos crentes que serviam a Deus com afinco irem se afastando aos poucos até que não sentissem mais qualquer necessidade de comunhão com o Senhor ou com sua igreja; até que não tivessem a terrível sensação de um vazio interior quando não louvavam seu Deus, nem aprendiam sua Palavra; até que a única recordação que tinham de seu salvador fosse a de que servi-lo cansava muito e gastava tempo demais. Algumas vezes, nem sei direito o que dizer para tais pessoas, tamanha a insensibilidade que acalentam em seus corações. Só sei dizer que suas vidas estão tão secas e áridas quanto o deserto em que Davi esteve.

Nenhum comentário:

Postar um comentário